APENAS UM CURUMIM

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Você já leu um livro com sotaque? Com sotaque indígena? Eu também nunca tinha lido, até pegar “Apenas um Curumim”, do catarinense Werner Zotz. Quando a minha mãe o contava para minha irmã e para mim, eu achava que era ela fazendo sotaque indígena, mas não era. Fato é que as palavras, tais como se apresentam, tornam impossível você não crer na voz narrativa e não se identificar com a angústia do pajé Tamãi que, próximo à sua morte, toma por missão transformar o pequeno Jari – já absolutamente aculturado –, num verdadeiro curumim. A missão é árdua, afinal, só sobraram os dois em sua tribo “povo do riso” e agora resta pouco tempo para tantas lições a serem aprendidas enquanto procuram outra tribo que assuma a criação do pequeno. Parece mesmo que o pajé fala com o curumim que, no caso, eu assumia ser eu enquanto a história era contada. Caraíba, eu tinha certeza, não queria ser.

São dois narradores. Pajé e curumim intercalam vozes e impressões e esta mistura não confunde, só esclarece, acrescenta, enriquece. O crescimento pelo qual Jari necessita passar, por uma questão de sobrevivência, é como um rito de passagem, não de menino para homem, mas de alguém sem identidade, para um ser humano com uma identidade para poder existir. Penso que toda criança passa por isso quando começa a ter as próprias ideias: através de imitações ou do jogo de fazer exatamente o contrário do que se pede até que entenda o que é certo e os limites que pode ter, busca e forja o ser humano que quer ser.

Sempre releio esta historia. Não tenho dúvida que as afirmações curtas e que, por isso, me parecem tomar maior peso, influenciaram a minha escrita. Às vezes, mesmo quando posso prolongar uma frase com vírgulas ou qualquer outra pontuação que caiba, opto por pontos finais. Funcionaram comigo criança. São ideias curtas. Separadas. Facilitando os pontos de reflexão. Sem verborragias. Tendendo a reticências, até. Reticência… como eu te amo!

“Apenas um Curumim” consegue em poucas páginas discutir cultura, ecologia, morte, solidão, orfandade, e ser lindo. Todo contado em tom profético pelo pajé e quase que confessional pelo curumim. O mestre ensina o anti-herói a virar herói e acabamos torcendo para que o aprendiz, Jari, se torne também mestre um dia, que tenha tal oportunidade, porque isso significa que os índios não estarão extintos.

Este livro me acalmou várias vezes na minha infância. Eu ficava aliviada, olhando para minha mãe contando mais uma vez esta historinha para minha irmã e para mim, já devidamente em nossos pijaminhas de flanela e mamadeiras nas mãos, satisfeita por saber que eu fazia parte de uma “tribo”.

Leiam para seus curumins! E até o próximo livro!

Belise Mofeoli.

 

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (5)

  • Luanda

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    Ah que história deliciosa, profunda e extremamente sensível! E que saudade do pijaminha de flanela!!! (rs)

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  • Regina

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    Parabéns a você, Belise, que está pincelando “Apenas um Curumim” a quem ainda não o conhece, e pela sua iniciativa de, através de Grandes Livrinhos que (Re) Li, polinizar o interesse de quem tem crianças em casa ou convive com elas.

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  • val

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    Gostei da história.!!Ainda não sabia desse livro !!!Vou ver se acho!!!minha filha vai amar!!!BJS…

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  • Belise Mofeoli

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    Vocês não sabem o prazer que me dá escrever nessa coluna e receber retorno. Beijinhos!

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  • Arieli Marcondes

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    Ótimooooo! Eu também não conhecia este livro!

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