ERA UMA VEZ UM CONTO DE FADAS INCLUSIVO

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Quando eu frequentava um curso sobre projetos culturais acessíveis, conheci uma pessoa, a Glaci, que foi quem me falou meses depois de uma coleção lançada no Sul do Brasil sobre contos de fadas em que as personagens tinham algumas deficiências. Fiquei interessadíssima em ler os textos, e, na semana passada, recebi a coleção “Era uma vez um Conto de Fadas Inclusivo”. São onze livros e um CD com a audiodescrição das histórias.

Agradam-me releituras de clássicos. Já o fiz numa visão bem específica e, na época, um avaliador de uma editora “x” disse que não era aconselhável ousá-lo (claro que sendo bem menos gentil que isso), deixando-me abismada com a afirmação, afinal, histórias de domínio público só chegaram a sê-lo de tanto que foram ditas, reescritas e adaptadas às épocas. Pouco tempo depois começaram as séries Once Upon a Time e Grimm, acrescente a isso todos os desenhos e filmes nesse universo do fantástico. Ri muito da situação. Agora, propor revisitar os contos de fadas pensando a inclusão social de pessoas com deficiências, é algo que me soa extremamente original. Cristiano Refosco o fez.

Vá lá, há alguns detalhes que foram esquecidos como o fato da prótese de borracha do pé da Cinderela não voltar a ser de madeira após a meia noite, ou até do Lobo Mau da história “Chapeuzinho da Cadeirinha de Rodas Vermelha” ser descrito como de pelos pretos e ter sido desenhado marrom. No entanto, há infinitamente pontos mais positivos na leitura dessas obras que mereceram esta indicação comprida (perdoem-me, é sobre uma série de livros, mereceu mais linhas) que vocês leem agora.

Dois títulos, particularmente, chamaram a minha atenção: “Aladown e a Lâmpada Maravilhosa” e “Alice no País da Inclusão”. Esta brincadeira com nomes ocorre com todos os livros da coleção. As obras tratam de personagens sem pernas ou sem pés, com muletas, anões, cadeirantes, autistas, sem braços, surdos. O resultado é empolgante!

“Pinóquio das Muletinhas” fez com que eu tivesse, mais uma vez a sensação de surpresa ao me tocar que Gepeto sempre amou o filho diferente. E que embora Pinóquio quisesse ser “igual” a todos, o pai já o aceitava como era. Nessa versão inclusiva, não teria graça se o boneco de madeira andasse sem muletas quando metamorfoseado em menino real. Em qualquer um dos contos da coleção não haveria sentido transformar as personagens com deficiência em pessoas sem deficiência porque isso não faria delas mais “normais” que, por sinal, é um termo excludente, pronunciado quase sempre por quem julga seguir padrões sociais aceitáveis por “n” motivos. Preconceituosos de modo geral.

Ao final de cada livro, há a explicação de termos corretos aos se referir a órteses e próteses e a pessoas com características semelhantes às personagens. Todo o blábláblá de “pessoas com necessidades especiais” sempre me deixou impaciente. E quem, por favor, não tem alguma necessidade especial? E quem não tem alguma restrição? Eu necessito, especialmente, de livros e muito carinho e tenho intolerância a lactose, o que me faz restringi-la na minha alimentação. E você? Quais suas necessidades especiais? Quais suas restrições? Percebeu como não faz sentido tais termos?

Na versão moderna de Cristiano Refosco, Lobo Mau não morre, é tratado por veterinário, a princesa Branca de Neve vira rã e assim fica até que um príncipe a beije, a princesa que espeta o dedo na agulha não adormece, amolece e o nariz do Pinóquio não muda de tamanho, só as muletas enfeitiçadas. “E isso é mesmo necessário?”, perguntariam os mais puristas, que pensam nas implicações da abordagem psicológica original. Olha, sinto sempre necessidade de discutir pontos de vista especiais.

 

Façam a diferença! E até o próximo livro.

 

Belise Mofeoli.

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (7)

  • Lu Moraes

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    Que bacana essa coleção! A literatura brasileira carece de mais livros que abordem temas como a inclusão.

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  • Marisa Godoy

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    Belise pela primeira vez desde que leio seus comentários não senti vontade de ler essa coleção. Não sei se pq tenho um ser “especial” aqui em casa que me lembra todos os dias o quanto ele é “normal” visto que nenhum ser humano é totalmente “normal”. Eu gosto muito de uma frase que diz: ” O (D)eficiente quando tratado com amor torna-se Eficiente”…essa coleção não me pareceu tratar do assunto com amor…estou errada?

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  • CRISTIANO REFOSCO

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    Olá, Belise. Parabéns pelo seu site. Adorei seus comentários sobre a coleção! Estamos estudando a modificação da cor do lobo para a próxima edição. Realmente, um detalhe que nos passou… Quanto a prótese da Cinderela sem pé ter continuado de borracha no final da história, vale lembrar que existem inúmeras versões dos contos de fadas. Na própria versão da Cinderela da Disney, por exemplo, o sapatinho de cristal não volta a ser um sapato comum no final da história. Considerei que Cinderela sem pé merecia sim permanecer com uma prótese de borracha, em vez da dura prótese de madeira.
    Vale lembrar que no final de cada história temos uma espécie de glossário onde termos como “criança especial” e “portador de deficiência” são substituídos por “criança com deficiência” ou “pessoa com deficiência”. O termo “especial” é ultrapassado por conferir uma espécie de “compensação” a quem tem uma deficiência. Ou seja, ele tem uma deficiência e por isso é especial. Todas as crianças são especiais para os seus pais, independente de terem ou não uma deficiência.

    Quanto ao assunto não ter sido tratado com amor, conforme a impressão da autora do outro comentário, sugiro que ela tenha acesso a um dos livros antes de tirar as suas conclusões. A coleção foi escrita e ilustrada por alguém que convive e trabalha há 14 anos com crianças com deficiência e que valoriza os seus mais diversos aspectos. Os livros do “era uma vez um conto de fadas inclusivo” não falam do “normal”, mas sim do “diferente” (visto que todos somos sim diferentes) e da importância do respeito a essas diferenças.

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  • Raquel

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    Olá.
    Gostaria de saber como faço para adquirir esta coleção.
    Obrigada.

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  • Neia Cipriano

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    Olá Cristiano, sou professora de educação especial a 25 anos e do ensino regular 4º e 5º anos. Quero parabenizá-lo pela ideia de escrever esses contos inclusivos.Sempre que tento trabalhar com meus alunos o tema, não encontro literatura adequada, e seus livros me deram um norte.
    PARABÉNS… e elogios e criticas sempre surgirão. Deixo aqui meu ELOGIO pela sua iniciativa.

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  • Rose

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    Olá, gostaria de saber como vc conseguiu entrar em contato para adquirir a coleção CONTOS DE FADAS INCLUSIVO pois, tentei contato com o autor pelo Blog e ñ tive sucesso. Apresentarei um trabalho sobre sobre Literatura Infantil e inclusão no próximo dia 3.
    Rose

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