Guerra e Paz

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Há alguns anos li “Guerra e Paz” do Tolstói. Em 2012 me encantei por “Guerra e Paz”, do Eraldo Miranda. Sinestesia. Eis a primeira palavra que me ocorre a respeito do livro. Sou uma viciada em cheiro de livro novo, isso é fato. O barulho das folhas sendo dedilhadas uma a uma sempre me causa frisson em qualquer bom tomo, mas a textura das páginas ecológicas desta obra… ah, foi uma carícia para os dedos! Um livro, obviamente, precisa ter uma história a ser contada. Pode ser por palavras, através só de imagens ou ambos. E, quase sempre, um se sobressai ao outro. Principalmente em se tratando de uma narrativa que tem em seu público-alvo, as crianças. Não se aplica a este caso.

Uma Mão Contadora de Histórias nos leva a excursionar pelas imagens das gigantescas telas Guerra e Paz, do brasileiríssimo pintor Cândido Portinari, e que dão nome não apenas ao livro, como a todo um projeto que trouxe a tela Guerra e a tela Paz – doadas na década de 50 pelo Brasil à sede da ONU em Nova Iorque – para uma exposição em vários estados de sua terra natal (além de a outros países) e que aqui, ainda contou com um show onde lançaram a música “Conversas, Pinturas e Desenhos”, com letra de Milton Nascimento, que é quem faz a introdução do livro “Guerra e Paz”, que, por sua vez, é um projeto da Editora Cria Mineira autorizado por João Portinari, filho do pintor.

Quando fui com a minha irmã ao Memorial da América Latina ver a exposição Guerra e Paz, não supunha que daquelas imagens sairia um livro para crianças. E menos ainda vindo do escritor que eu “adotei” como meu mentor. É, adoro “literatura contada”. Eraldo Miranda tem o dom de escrever algo que ao lermos, temos a impressão de estarmos ouvindo. Ele subverte todos os sentidos e, a meu ver, é hoje, um dos maiores escritores da literatura infantil brasileira. Não espere livros com linguagem infantilóide e cheios de respostas prontas vindos deste escritor que tem em seu público, os questionadores.

Uma das passagens mais bonitas do livro que aqui recomendo é a afirmação de que os heróis estão “no coração de perguntadores e insatisfeitos com um mundo de guerras”. E, enquanto Eraldo Miranda trava sua guerra pessoal para implantar novos vocabulários e pontos de interrogações em seus leitores, os jovens desbravadores de seus livros encontram em cada página, uma nova perspectiva.

O livro “Guerra e Paz” oscila entre lúdico e realista. E quem não precisa ser ambivalente nos dias de hoje? Atualmente, é impossível esconder de uma criança que a fome, a morte, o mal existem. Nem acho que devamos fazê-lo. Essas mazelas se debruçam sobre nós assim que abrimos a porta de casa. Claro que os pequeninos percebem! Então, apresentar a possibilidade de detê-las como algo real, que depende dos nossos sentimentos e ações, ajuda a formar um ser humano sensível, sem medo de arregaçar as mangas para fazer do mundo, melhor. E tudo isso encontramos no livro “Guerra e Paz” que, para mim, funciona como uma Caixa de Pandora: resta sempre, a esperança.

Só acho restringir demais dizer que “Guerra e Paz” é para o púbico infantil. É, antes, um livro de se comer com os olhos, de se tocar com a alma e de se guardar, sonhando. Uma obra, portanto, para quem anseia pelo belo e não se reprime ou enclausura em sua idade cronológica. Talvez pareça falta de imaginação dizer que “Guerra e Paz”, do Eraldo, do Portinari, da Cria Mineira, é uma obra de arte, mas é isso mesmo. Literalmente.

Até o próximo livro,

Belise.

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (10)

  • Mercia

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    Parabéns Belise, um “salve” para a nossa eterna criança interior! bj

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  • Maykar guerra

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    Nossa!!!!! Adorei!!!!! Fiquei com vontade de ler o livro!!! muito bom!!!

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  • Eraldo Miranda

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    Cuca Maluca… Que ideia poética para trazer ao publico leitor reflexões literárias dentros de perspectivas tão contempâneas. Me honra o espaço aqui para critica do Guerra e Paz, um espaço de palavras abertas ao coração, mas também a olhares literários e conscientes sobre a literatura infantojuvenil brasileira.
    Que o Tapete da Harmonia, Poesia e Letras se estenda diante dos pés daqueles que, no site Cuca Maluca, sonham com Mundo de Leitores e Livros, e mais, Leitores de um Brasil de Reflexões, Alegrias e Esperanças…
    Eraldo Miranda

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  • Sabrina

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    Adorei! Que vontade louca de abrir um livro e sonhar!

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  • Jacy Lage Jr.

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    Belise,
    Grandes autores foram críticos também, Shaw, Nelson Rodrigues.
    Não nos furte seu deleite com aquilo que gostar. Aprenderemos a apreciar também por seus olhos e por suas palavras.
    Beijo do magro,
    Jacy Lage Jr.

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  • Cria Mineira

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    Nós, da Editora Cria Mineira, nos sentimos muito gratos e muito honrados pela sua crítica, Belise. Essas belas palavras nos motivam ainda mais a continuarmos na batalha através da arte e da literatura com o propósito de levar ao público infantojuvenil a reflexão sobre importância de se criar um mundo mais solidário e mais sustentável. Gostaríamos de aproveitar a oportunidade e deixar registrado no seu blog os nossos mais sinceros agradecimentos ao escritor Eraldo Miranda pelo seu imensurável talento, a João Candido Portinari e a toda equipe do Projeto Portinari pelo grande apoio que deram, e também, ao nosso querido Milton Nascimento pela sua grandiosa participação. Abraços – Cria Mineira.

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  • Fernanda

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    Parabéns! Adorei! Super talentosa e competente no que faz. Será um prazer ler a coluna! Sucesso!

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  • Luanda

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    Parabéns pela coluna, Bela! Vindo de uma devoradora de livros, apaixonada pelo público infantojuvenil, tenho certeza que diversas outras dicas preciosas estão por vir.
    Sucesso!!!

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  • Belise Mofeoli

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    Gostaria de agradecer a todos. à Cuca Maluca pela acolhida, àqueles que curtiram e compartilharam a coluna e, obviamente, ao escritor Eraldo Miranda e à Editora Cria Mineira pela atenção que tiveram comigo ao colocarem seus cometários aqui. Beijos a todos. Espero contar com vocês nos próximos posts.

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  • Sandra Regina da Silva

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    É sempre muito bom ler seus comentários. Nos dá outra visão de livros que lemos, alguns há muito tempo. Obrigada! Ansiosa pela próxima, Bela.

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