QUANDO A VERGONHA BATE ASAS

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Quem leu primeiro aqui em casa o livro “Quando a vergonha bate asas…”, do autor Jonas Ribeiro, foi meu eu-lírico infantil – que escreve uma porção de coisas e que reencontrei há alguns anos –, e depois, eu reli com meus olhos da mulher que, sem dúvida, dará a seus filhos boas leituras. Acontece que essa história me fez lembrar de quando eu entendi que escrever era o que eu queria fazer para o resto da minha vida.

Em “Quando a vergonha bate asas…” somos apresentados a Felipe, um menino tímido que tem um grande segredo: escreve poesias e as guarda em uma pasta verde, sem mostrá-las a ninguém. Até que sua professora resolve organizar um sarau poético e o menino descobre que gostar de escrever não é motivo para vergonha e sim um talento. Leitores cúmplices, conseguimos ter acesso aos versos do menino Felipe que, sem dúvida, são beeeeem melhores que os que eu fazia na idade dele (Jonas é um poeta!).

Aos 10 anos eu tive um professora de Português que um nos disse para fazermos uma poesia sobre algo inanimado, personificando-o, e que, só no final a gente revelasse do que se tratava. Minha personagem era uma nuvem. Eu já escrevia em casa. Desde que me lembro, sempre tive um caderno ao lado da cama para anotar sonhos e pensamentos que pudessem virar histórias, porque assim eu poderia lembrar deles sempre que quisesse. Mas eu só mostrava em casa. Minha mãe já me dizia, naquela época, o que tinha ficado bom ou não. Dava-me os porquês e me deixava refletindo. Sei que, graças a essas conversas evoluí como escritora. Já na escola ninguém sabia. Eu tinha vergonha que achassem que eu era muito boba, nerd (não, na época o termo era CDF). No dia de ler a poesia para a sala fiquei tensa. Mas depois, quando o fiz e todo mundo gostou, a sensação de alívio foi imensa. E eu soube que queria escrever. Mesmo que isso fosse muito… CDF.

Pois é, tantos valores invertidos com os quais nos deparamos no dia-a-dia! E gostar mais de cultura que de alguns objetos de consumo, durante um período – que inclui a minha infância – parecia um absurdo. Tudo indica que as pessoas acordaram e a leitura, o teatro, o cinema, o museu, a fotografia, a música erudita e a de raiz… voltaram a ser vistos com bons olhos pelos jovens. Mas como uma criança pode saber disso se está exposta a tantas informações de interesses mercadológicos? Como fazê-la sentir-se à vontade para ser diferente, estimulada a ser original?

A resposta a estes questionamentos é óbvia e está em “Quando a vergonha bate asas…”. É em casa que os valores e a autoafirmação da criança se forjam. É responsabilidade dos pais fazerem-se parceiros dos filhos, para que estes os deixem entrar num lugar secreto onde nenhuma ordem ou castigo é capaz de impedir que o ser humano seja verdadeiro: aquele onde moram os anseios da criança. E é lá que os adultos devem visitar – até porque não conseguiriam invadir – se pretendem ensinar os filhos a serem humanos em todas as suas nuances, para saberem reconhecer suas fraquezas, e mesmo assim se sentirem fortes. E Felipe, o protagonista do livro indicado hoje, tem uma brandura comovente que os meninos, raramente expõem. Uma pena!

O mundo, definitivamente, precisa de mais cavalheiros e não de machistas. Jonas Ribeiro (até o momento, pai de 149 lindas obras) é assim. Não tem receio de ser suave, encantador, gentil, e isso se reflete em cada uma de suas linhas. Pois é…, nem que eu tenha que mandar fazer mais estantes, em breve haverá em casa um espaço não apenas para “Quando a vergonha bate asas…”, leitura obrigatória para pais e filhos que pretendam estreitar laços, mas para todos os 149 +n livros dele aqui em casa. E que o “valor de n” seja imenso, porque o bem que causa, é infinito.

Poetizem-se! E até o próximo livro.

 

 

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (3)

  • Regina

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    A leitura alimenta nossa mente e nossa alma. Descortina horizontes e fomenta em nós o desejo de apreender, de aprender cada vez mais, de sonhar e realizar. Grandes Livrinhos que (re) Li tem trazido até os leitores do Cuca Maluca, como sugestão, uma série de bons livros. Tenho a certeza de que você está fazendo, e bem, a sua parte nessa história. Parabéns, Belise!

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  • Clarissa

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    Não se pode deixar de realizar um sonho. Os sonhos nos dão ânimo e esperança na vida e jamais podemos deixá-los escondidos em uma gaveta. O importante é ser feliz, fazer o q se gosta (qdo não se prejudica ninguém), sem nos importarmos com o q os outros vão dizer.
    Com certeza uma bela história!

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  • Alê

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    Vc sempre tornando a vida melhor!!!

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