O menino do dedo verde

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

De uma casa onde tudo brilhava, nasceu uma criança brilhante, Tistu. Como não sabiam lidar com ele na escola, o menino foi impossibilitado de ter uma educação formal. Assim, seus ricos pais proporcionaram a ele diversas formas de conhecimento, com professores variados, que lhe explicavam coisas práticas do dia-a-dia. Quem o conhecia sabia que ele era, sim, capaz de aprender. E com que categoria o menino provou isso!

Com Sr. Bigode, o jardineiro, Tistu aprendeu que tinha um talento ímpar: o dedo verde. Num toque, transformava prisões, favelas, hospitais e até áreas em guerra em grandes jardins. “As flores não deixam o mal vir adiante”, assimilou o pequeno. Um raciocínio para lá de moderno ainda hoje. Afinal, como querer reformar pessoas em ambientes que os incitam a fugir e não a se modificarem? Como querer felicidade num ambiente tão desprovido de tudo? O que motivaria alguém a querer melhorar se não há o belo para se ver na vida?

A beleza das flores de Tistu mudaram a vida dos animais do zoológico, da sua família que vivia da indústria bélica, de todos seus professores informais e da cidade que o incompreendia.  Alquimia de humores, talvez? Ou seria um caso raro de aluno que nasceu para ser mestre e ensinar grandes lições? Raro?! A frase “Não sabendo que era impossível foi lá e fez”, sendo de Mark Twain ou de Jean Cocteau (conte-me quem tiver o veredito final), resume às aventuras do delicado TIstu. E do Santos Dummont, e do Albert Einstein, e do Graham Bell, e dos irmãos Lumière, e do Gutemberg, e do Alexander Flemming, e do Leonardo Da Vinci…

O que admiro nas crianças é a capacidade de se impressionarem com o simples. Elas aprendem o tempo todo, imitam, testam a gente, buscam exemplos, são absolutamente surpreendentes… até que alguns se acostumam com o lhe metem goela a baixo e se tornam pessoas adultas e incrédulas. E se esquecem que sem tentar fazer o que afirmam ser piamente impossível, essa falsa verdade perdurará e o mundo permanecerá sem progressos. Ao menos os que nos importam. Tistu era herdeiro de uma imensa fábrica de artigos para a guerra, mas não era isso que queria para si. Ele mostrou empiricamente no que acreditava e fez quem amava – e até quem não ligava para ele – que havia um novo jeito de se viver.

“O Menino do Dedo Verde” é a personificação do sonho de todo ecologista: tem o poder de germinar as mais belas flores com a ponta do dedo. Também sintetiza o objetivo de todo pacifista: consegue combater guerra com flores. Ele questiona, aponta, discorda, age. Pena ser fictício! O mundo precisa de mais pessoas que sintam necessidade de mudanças e se ponham na linha de frente desta batalha.

 

Deem o melhor de si! E até o próximo livro.

Belise  Mofeoli

Trackback

Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (2)

  • Regina

    |

    Há muitos anos, quando eu lecionava para uma classe de alfabetização de adultos, fui presenteada, por uma supervisora, com um exemplar desse livro que continha uma dedicatória muito amável. Guardo- o com muito carinho.
    Parabéns por essa escolha. É um livro interessante e gostoso de se ler.

    Responder

Comente