O PATO, A MORTE E A TULIPA

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Ah, a morte! Essa certeza que tentamos esquecer, mas que não nos esquece… Um beijo e… a eternidade! Sentados na calçada, em frente ao portão, pegando os últimos raios de Sol da tarde daquele dia que parecia não ter fim, o diálogo que se deu entre a minha irmã e meu primo Nicolas, de quatro anos de idade, foi mais ou menos assim:

- Está triste, Nicolas?

- É que eu queria que o tio Aroaldo voltasse, mas ele não vai voltar.

Essa passagem me tocou e por causa dela resolvi falar de mais um livro que trata sobre a morte, mas de um jeito tão realista, que equivaleria a um “Pois é, querido, não vai. O corpo dele morreu.” Eu prefiro falar assim, diretamente sobre morte a tentar confundir cabeças de crianças com metáforas que não aliviam suas dores.

“O pato, a morte e a tulipa” era exatamente a força que eu precisava para fazer meu cérebro voltar a funcionar. Passei uns dias no “piloto automático”. O livro indicado hoje me fez mudar o post da semana e até sorrir num momento triste como esse, apresentando-me a morte – tal qual a que estudo e acredito –, empiricamente, de um jeito que eu ainda não havia conseguido assimilar: acalanto.

A morte, em geral, a vilã das historias, é apresentada em “O pato, a morte e a tulipa” como uma companheira íntima, que nos segue a vida toda desde o nascimento e que só enxergamos quando passa a ser inevitável convivermos com sua proximidade. Assim, o pato convive com sua morte antes que deixe a vida. Só entrega-se quando pede a ela que o envolva num abraço, para aquecê-lo, pois sente frio.

Com meu pai foi assim também. Chegou uma hora em que estar vivo era sofrimento e falecer mais o acalentou que o agrediu. Sofremos, claro. Sofreremos ainda mais quando começarem a “cair as fichas” e não mais o encontrarmos escutando suas excelentes músicas, pintando uma obra de arte ou lendo. Ou implicando. Ou xingando. Ou rindo. Ou se arrependendo. Ou errando ainda mais.

Faz tempo que as crianças merecem um livro como “O pato, a morte e a tulipa”. Em alguns casos o fim do corpo é acaso, noutros, tragédia, mas com meu pai… foi pura generosidade. Disse o meu avó, diante do caixão do filho dele e com uma lágrima pesada escorrendo dos olhos: “Ficar doendo e cheio de tubos era viver? Melhor assim.”. Meu abraço carinhoso e solidário a todos que perderam seres amados.

Carpe diem! E até o próximo livro.

Belise Mofeoli.

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (4)

  • Glaci Braga

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    Impossível não se emocionar com o teu texto. Em um assunto tão delicado e ao mesmo tempo tão presente fostes de uma delicadeza incrível. É muito bom quando somos honestos com as crianças em todos os temas da vida e, em especial, a morte, pois acredito que ela assusta mais pela forma com que a tratamos.

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  • mercia

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    Um texto de amor límpido..apesar da morte! O pato, a morte a tulipa…e a pureza de amor das crianças, apesar da morte!

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  • Luanda Moraes

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    Quantos sentimentos em conflito, oscilando entre aceitar e não acreditar…Pensar a morte como uma realidade natural da vida, é o nosso desafio e nesse momento então, mais difícil ainda.
    Essa discussão é essencial p/ que não soframos tanto e de uma maneira delicada e sensível como você a faz, parece mais fácil.
    Tenhamos fé no futuro! A vida com certeza, não termina por aqui.
    Eu te amo, Bela!!!

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  • Belise Mofeoli

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    Bom, afinal, a morte faz parte da vida, não? Enquanto ela não se avizinha, que vivamos em paz e felizes. Agradeço as palavras.

    E Lu, minha Preta, também te amo, irmã.

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