O Pequeno Príncipe

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Preciso fazer uma confissão: meu primeiro contato com “O Pequeno Príncipe” foi com o desenho animado, não com o livro. Erro única e exclusivamente meu. Ele sempre esteve na minha prateleira. A minha edição é de antes de eu nascer e tem uma dedicatória da minha mãe – na época, grávida de mim – dizendo que era pra minha irmã “…, e para Belise de amanhã”, e que encerra com “Um beijo carinhoso da mamãe”. Com espanto descobri, ainda criança, que o menininho lindo da TV era inspirado no livro com um garotinho “tão mal desenhado!”. Vou me basear na expressão “óbvio ululante” do Nelson Rodrigues para dizer que foi naquela época que comecei a entender que o livro é, sempre, melhor que qualquer adaptação dele.

Os traços dos desenhos do autor da obra me agradavam. Mesmo feios. Mesmo com aquelas linhas leves, simples, sem muitos detalhes. Eles pareciam… meus? De qualquer um que tem alguma dificuldade em desenho. Identificação instantânea: eu fui incapaz de desenhar até dois anos atrás, quando fiz um curso. Ri/rio das justificativas das imagens feitas pelo narrador a pedido do Pequeno Príncipe. Aprendi a vencer na argumentação sempre que, não tendo talento para pintura, eu me refugiava na explicação da “arte abstrata”, termo que aprendi com meu pai.

É engraçado como o autor, Antoine de Saint-Exupéry, brinca consigo mesmo ao fazer-se aviador-personagem. Um charme quando fala de “pessoas grandes” na terceira pessoa. A questão é: faz sentido. Uma historia toda narrada em primeira pessoa, testemunhal, de alguém que aprendeu que “o essencial é invisível aos olhos” na convivência com o Pequeno Príncipe, e que não compartilha, portanto, da visão limitada que os adultos costumam ter. Digo e repito: “Crescer, é para os fracos!”

Um dia eu descobri que o Pequeno Príncipe era um ET. Tudo culpa do Spielberg! E me angustiava a orfandade dele. Porque o ET do Spielberg voltou para casa acompanhado, mas o menininho mal desenhado, coitado! Ele morava sozinho, num planetinha minúsculo, com a incumbência de cuidar de pequenos vulcões, raízes de baobá e uma rosa. Tinha que ser auto suficiente. Deus me livre de algo assim, tão solitário. Então eu comecei a perceber que eu também tinha um mundo só meu, que vivia na minha cabeça com um monte de personagens que eram interpretados pelas minhas bonecas.

Divagações à parte, “O Pequeno Príncipe” ensinou-me que não importa se no Universo somos apenas um pontinho vivendo num espacinho de nada. Esse “nada” é tudo o que temos e precisamos cuidar dele. E embora o garotinho que se apresentava como Pequeno Príncipe afirmasse que “os homens não gostam de raízes”, ele próprio não via problema algum em remexer em algumas (as dos baobás) e menos ainda em afirmar que, embora tivesse curiosidade em conhecer outros mundos, sabia que voltaria para sua casa, para as suas raízes. Talvez seja nosso lado criança que nos faça sentirmos aconchegados em nosso local de origem.

Por que recomendar um livro que mesmo quem não leu, provavelmente, sabe que existe? Porque ele é lindo, oras! Quanta delicadeza em poucas páginas! Livro da época em que criança não tinha medo de livro de capa dura, cheio de páginas. É daqueles que faz a criança começar a questionar um monte de coisas essenciais para o caráter humano. Dá muito assunto a ser discutido entre pais e filhos. O principezinho do asteroide B 612 sou eu, é você e toda criança que conseguir morar num peito, mesmo se adulto. É nosso lado que não aquieta, que tem o dom infantil de nunca contentar-se com uma falta de resposta.

Escrevo essa dica de literatura infantil, tomando chá de hortelã numa caneca imensa do Pequeno Príncipe que sempre me inspira. Sinceramente, não sei por que pegam tanto nos pés das misses que declaram ter lido o livro mais conhecido do Saint-Exupéry. Que bom que leram! Todos deveriam ler essa poesia de ser lida com o coração, disfarçada de romance para crianças. Estou cativada!

Aventurem-se! E até o próximo livro!

Belise Mofeoli

 

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (9)

  • Gustavo

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    Belise, adorei a abordagem de um clássico como “O Pequeno Príncipe”.
    Me identifiquei muito quando você se descreve pegando a edição antiga com a escrita de sua mãe.
    Assim como você, também li uma edição muito antiga que pertece a minha mãe.
    Não fique chateada em ter primeiro conhecido a versão de “O Pequeno Príncipe” em desenho animado pois a maioria das pessoas de nossa idade também o conheceram assim.
    Eu mesmo há dois anos atrás fui ver pela primeira vez uma montagem de “O Pequeno Príncipe” para o teatro e não me arrependi.
    Belise continue sempre assim.
    Abração!

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  • Marisa Godoy

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    ótimo…ótimo…esse livro que li e reli e continuo relendo tem a magia nas entrelinhas… e a cada releitura vou descobrindo/identificando o quanto a criança que existe em nós é sábia. Um risco tem seu significado lógico mas as vezes esquecidos disso somos apenas adultos. A frase que norteia até hoje minha vida é: “TU ÉS RESPONSÁVEL POR AQUILO QUE CATIVAS’…e você (Belise) vem me cativando com essa forma de escrever o que você sente… lendo seus comentários decidi que já é hora de dar um “Pequeno Príncipe” para minhas netas. ..Qual será o próximo?

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  • mercia

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    Belise, pequenos momentos em gdes vidas! parabéns!

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  • jane

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    As coisas importantes e boas devem lembradas. Eu li este livro pela primeira vez para minha filha, gostei e reli. Para muitos pode parecer uma simples obra escrita para crianças, e não enxergará o que ha de mais puro nele.. Talvez muitos de nós não percebamos o que existe de valor no livro, ele expõe os valores escassos na nossa sociedade. Foi muito bom você citar esse livro. Vou ler mais uma vez.. “o essencial é invisível aos olhos”

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  • cora carolina cenzi

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    Que lindooo *-* beijos.

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  • Sandra Regina da Silva

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    Bela, nem lembrava-me mais do quanto gostei do Pequeno Príncipe. Também pudera… faz “algum” tempo que li… rs rs. Lendo seu comentário, senti um gostinho de saudade. O que fazer?????? Matar essa saudade. Vou ler, correndinho.

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  • Regina

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    Que lindo texto, de muita sensibilidade! Despertou em mim a vontade de reler essa obra, agora sob novo olhar. Parabéns! Gosto muito de ler os comentários de sua coluna.

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  • Belise

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    Ah, mas a ideia é exatamente esta, gente: que “tirem o pó” da edição do livro quem o tem, que busque uma, quem ainda não comprou, ou até que visitem bibliotecas, garimpando o que não acharam em livrarias.
    Tudo que divido aqui não são verdades absolutas, menos ainda críticas literárias. É só a minha opinião sobre livros que eu acho relevantes.
    Minha coluna sai toda quarta. Divirtam-se! Divirtamo-nos!

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  • Marcus

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    Seu site e muito bom mesmo…demonstra muito amor e dedicação.Um abraço….Deus abençõe

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