O PRÍNCIPE QUE BOCEJAVA

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Eis que na semana em que os brasileiros protestam exigindo novas políticas públicas para que possam viver com melhores qualidades de vida e terem seus direitos respeitados, o livro “O Príncipe que Bocejava” sorriu para mim da prateleira e virou dica nesta coluna. Não se trata de um livro político, mas de um romance, assim como essa coluna é para dicas fofas de literatura infantil, correto? Errado. Primeiro, porque quase tudo é questão política: educação, saúde, cultura, economia, ecologia… de modo que minha interpretação foi por esse caminho (talvez a da autora seja outra), e depois, porque escrevo para ajudar nossos futuros adultos a serem questionadores e heróis das próprias histórias e para que consigam se sentir acalentados pelas narrativas literárias.

Ana Maria Machado, em “O Príncipe que Bocejava”, nos apresenta um menino tolhido de sua meninice e obrigado a fazer sempre o que lhe diziam e a pensar como o faziam pensar, que virou o príncipe idealizado, que encantava princesas capazes de… desencantar qualquer um. Qualquer um que não fosse superficial. Qualquer um que visse além das aparências. Qualquer um que buscasse alguém para dividir uma vida inteira. Qualquer um que precisasse ser tocado a ponto de se abrir para si mesmo.

Foi saindo para o mundo, sem grandes planejamentos, deixando-se levar pelo prazer da companhia de uma moça – que também seguia o rumo que o coração lhe indicava – que, num trem, “O Príncipe que Bocejava” embarcou na maior história de sua vida, maior até que todas as que havia lido: o amor. Sentimento esse que brotou nos jovens unidos pelo gosto literário. E, longe de todas as convenções, o príncipe encantou-se pela beleza dos momentos que passava com a jovem que não era fútil.

Como é linda a lição que Ana Maria Machado passa no livro que aqui indico! Penso que tudo bem vivermos num contexto capitalista, que é legítimo termos bens de consumo, afinal lutamos por conforto. Mas, a maior riqueza ainda é aquela que não é nunca tirada de nós: a educação. E falo da formal, aprendida na escola e da informal, do dia-a-dia, em casa. E, sinceramente, acredito que o prazer pela leitura é estimulado em casa. E quem lê aprende a não ser manipulado, a escolher seus próprios sonhos e rumos.

Nossa sociedade parece estar saindo de um principado para uma nação em que não é mais possível não questionar o que sempre foi imposto pelas realezas desde o começo da colonização do nosso país. A juventude, ao que parece, não andava tão alienada quando diziam. Bastou a gota d’água. Do mesmo modo, “O Príncipe que Bocejava” percebeu que sua quase letargia, o seu sono, deviam-se ao fato de não encontrar ninguém que o estimulasse. Pois é, às vezes precisamos de um empurrãzinho. Que a motivação esteja sempre presente em nossos corações. Que não cansemos de viver nossos sonhos, mas que a empolgação não nos faça perder a racionalidade e a legitimidade.

 

Reconstruamo-nos! E até o próximo livro.

 

Belise Mofeoli.

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

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