POCHÊ

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

A minha irmã tinha uma tartaruga chamada Olívia. Na verdade, um jabuti. Ela foi comprada e logo começou a ficar doente. Descobrimos que o motivo era desnutrição. Por mais que oferecêssemos uma dieta ideal e a colocássemos no Sol com extremada supervisão, ela morreu. É que era chegada a época de hibernação e a Olívia não queria mais comer. Tragédia? Não. Imprudência do dono anterior, maldade, sei lá. Tragédia mesmo foi o que aconteceu com o Polegar, melhor amigo da tartaruga “Pochê”, que dá nome ao livro indicado hoje. O pobre morreu com uma pedra que esmagou sua cabeça acidentalmente!

Por mais que tenhamos certeza da morte, e até leiamos a respeito, nunca estamos preparados para ela, né? “Pochê” também não estava. E então inventou um jeito de se comunicar com seu amigo que lhe fazia tanta falta: escrevia bilhetes em nome dele, todos endereçados a si mesma. Alguns, até com presentinhos. Isso bastou por um tempo. Depois, quando não deu mais para ficar se enganando, “Pochê” saiu pelo mundo, conheceu outros animais, nem com todos fez amizade, nem sempre encontrou o que buscava e, não buscando, achou um canto que chamou de seu.

A vida, ainda bem, não tem regras e acontece além ou aquém das nossas expectativas. A morte inesperada do amigo Polegar fez “Pochê” repensar a própria vida, se desprender de bens materiais e levar consigo apenas o necessário. No meio de tudo isso, passagens delicadas mesclam-se a outras bem divertidas.

“Pochê” é um nome engraçado e que vem a calhar na personagem. O ovo poché parece frito, mas é cozido, numa consistência só dele. A protagonista da história sabe ser doce, grosseira, hospitaleira, impaciente… e até sente vontade de tomar chá de verbena, que nem gosta tanto assim, mas que a faz lembrar do cuidado que o amigo Polegar tinha por ela. E quem não se identifica? Quem não se reinventa? Quem não precisa de tempo para reaprender a seguir seu rumo depois de uma perda? “Pochê” percorreu um novo caminho e eu recomendo que vocês que acompanhem todos os passos dela.

Desbravem-se! E até o próximo livro!

Belise Mofeoli.

 

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (3)

  • Luanda

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    De fato, não estamos preparados para a morte. Estranho né? Afinal, é a única certeza que temos na vida. Nós, que vivemos no Ocidente, não fomos educados a pensar nela de uma maneira natural, pelo contrário, tememos muito por essa hora, seja a nossa ou a de entes queridos. Precisamos trabalhar melhor isso.

    Adorei a dica! Lerei essa história!

    Obs.: A morte prematura da nossa estimada e querida Olívia, foi uma (quase) tragédia p/ mim sim.
    :-(

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  • Ed Sabino

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    Belise Mofeoli, quanta sensibilidade. Suas dicas de livros são ótimas! Adoro sua coluna!

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  • Ed Sabino

    |

    Belise Mofeoli, quanta sensibilidade. Suas dicas de livros são ótimas! Adoro sua coluna!

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