Romeu e Julieta

Publicado por Belise Mofeoli em Literatura

Um dia Willian Shakespeare sentou para começar a escrever a peça Romeu e Julieta – ao que tudo indica, também inspirado em outras narrativas – e de depois disso, todo mundo concordou que era tão genial, que essa história de amor incompreendido por famílias rivais foi revisada centenas de vezes. Já li peça e gibi, assisti a ópera, teatro tanto de atores quanto de formas animadas, desenho animado, quadro de comédia e ainda vi os mais diferentes tipos de quadros a caricaturas referentes a essa tragédia shakespereana. Sinceramente, a que mais me marcou – além, obviamente, da obra original – foi “Romeu e Julieta” da Ruth Rocha.

Segundo Ruth Rocha, Romeu era uma borboleta azul, do canteiro das flores azuis e Julieta, uma borboleta amarela, do canteiro das flores amarelas. Por isto eles não podiam ser amigos. Para brincarem juntos, só se fosse escondido dos pais. Nessa versão infantil, o final não é trágico, mas a abordagem me parece ainda mais séria do que em sua versão original (calma, Shakespeare, não se revire, sou sua fã incondicional!). Ruth Rocha fala de preconceito.

De uns tempos pra cá “virou moda” ser negro ou índio. Tantas políticas afirmativas fazem até quem há pouco tempo usava de subterfúgios para assumir sua etnia, bata no peito para declarar orgulho de seus antepassados. Quando eu era criança, não era assim. Quase como se a regra velada fosse ser caucasiano. Meu pai conta que certa vez foi conversar seriamente com uma professora minha que resolveu “castigar” um aluno colocando-o num canto da sala, chamando-o de “indinho” por ter se comportado mal. Como se ser índio fosse negativo! Eu havia chegado em casa e contado que achei tão ofensivo o que foi feito do meu colega  que ao final do meu relato,  voltamos à escola a fim de discutir preconceito com aquela pessoa que, definitivamente, não estava apta a ensinar. Especialmente em nosso país, que é mestiço.

A família do meu pai é negra, a da minha mãe, majoritariamente branca. Meus traços são finos e minha pele é marrom. Então, quando eu lia ad infinitum o livro “Romeu e Julieta” da Ruth Rocha, eu pensava no quanto aquilo de separar quem se gosta, pela cor, era bobo. Eu ainda não entendia que, na verdade, era cruel. Percebi no lamentável episódio do “indinho”. E se hoje as pessoas parecem mais tolerantes ao tom da pele, o livro aqui recomendado também se torna pertinente se pensado em relação a diferenças de credo, preferência política, orientação sexual etc.

Romeu e Julieta do Shakespeare era sobre o amor de dois adolescentes de famílias rivais. “Romeu e Julieta” da Ruth Rocha é sobre amor também. Amor à alteridade do próximo. O final é lindo! Coçam meus dedos para emitirem pareceres sobre ele, mas não quero fazer spoiler e acabar com a graça da história. Um conselho? Tenham esse livro se quiserem que seus filhos cresçam preparados para um mundo plural.

 

Reinventem-se! E até o próximo livro.

 

Belise Mofeoli.

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Belise Mofeoli

Belise Mofeoli

Quando a Valeria Guerra me convidou para dar dicas de livros infantis, eu parei, pensei e disse: “Pode ser algo menos careta, como um bate-papo com os pais?” Porque se não fosse, assim, não haveria grandes motivos para esta coluna existir. O que eu queria é discutir literatura infantil de qualidade partindo do ponto de vista da criança que fui. Resolvi botar a pequena Belise no colo e cuidar dela, sabe? Aí ela começou a tomar conta de mim e a me explicar o efeito que cada história fez/faz nela, e que me transformou em alguém que vive da escrita. Depois de tanto pensar e rascunhar possíveis nomes, ao batizar esta coluna de “Grandes Livrinhos que (Re)li”, senti que ia me divertir muito a escrevendo. Tem livros muito bons sendo escritos hoje em dia, contudo, não resistirei a falar também dos mais antigos, que vêm fazendo parte da infância de várias gerações. Afinal, que posso eu fazer se os clássicos são... “clássicos”? Belise Mofeoli é Roteirista, Redatora Publicitária, Roteirista de Audiodescrição.

Comentários (6)

  • Lili

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    Adorei Beli! Vou ficar de olho nas suas dicas, porque daqui a pouco meu netinho Divi Reis nos brindará com sua presença e ele vai precisar de muita literatura boa e a avó tb. Afinal, vou querer discutir o texto com ele….rsrsr

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  • Ed Sabino

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    Sempre li histórias infantis para os meus filhos, eles adoravam quando crianças! Já tinha escutado falar nos livros da escritora Ruth Rocha (o quanto são bons), porém só agora me dei conta que nunca cheguei a ler um livro dela para eles. Falha minha. Mas com certeza, para os meus netinhos, eu lerei! Adorei a dica!

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  • Luanda

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    Adorei Bela! É isso aí, não dá p/ esperar as crianças crescerem p/ falarmos de assuntos importantes com elas. Sabemos bem que é de pequeno que se educa um futuro cidadão. E esse tipo de abordagem (nesse caso o tema preconceito) na literatura infantojuvenil, com certeza contribui e facilita um diálogo consciente e necessário com os pequeninos. Não podemos e nem devemos subestimá-los. A atenção tem q ser total. E com um livro da super Ruth Rocha, os temas se tornam ainda mais agradáveis de serem lidos, pensados e discutidos.
    Bjoo

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  • Regina

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    As cores com que pintamos as vidas de nossos filhos são as cores com que eles verão o mundo, salvo raras excessões. Parabéns pelo enfoque.

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  • Regina

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    As cores com que pintamos as vidas de nossos filhos são as cores com que eles verão o mundo, salvo raras excessões. Parabéns pelo enfoque.

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  • Belise

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    Obrigada pelo carinho de todos.

    E Liliiii! Parabéns por esse bebê! Olha, se ele for criado a base leite materno e Ruth Rocha, vai virar um garotão ótimo!!! Saudável e inteligente. Lindo a gente já sabe que vai ser.

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